Durante décadas, o carro voador foi tratado como um símbolo do futuro que nunca chegava. Presente em filmes, desenhos e previsões tecnológicas desde o século passado, a promessa parecia distante da realidade. Agora, esse cenário começa a mudar.

A cidade de Guangzhou, na China, passou a abrigar a primeira fábrica do mundo dedicada à produção em massa de carros voadores. A unidade, pertencente à Aridge, subsidiária de mobilidade aérea da montadora chinesa XPeng, já colocou a primeira unidade na linha de montagem e pretende transformar uma antiga ideia futurista em produto comercial.

Batizado de Land Aircraft Carrier ("Porta-Aviões Terrestre"), o veículo aposta em um conceito completamente diferente dos carros voadores tradicionais.

Dois veículos em um só
Em vez de instalar asas em um automóvel, a fabricante dividiu o projeto em dois módulos independentes.

A chamada "nave-mãe" é um veículo híbrido de três eixos e seis rodas, equipado com motor elétrico e um propulsor a combustão que atua apenas como gerador de energia. Com autonomia superior a 1.000 quilômetros, ela transporta, na parte traseira, uma aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical (eVTOL).

Ao chegar ao destino, basta retirar a aeronave do compartimento traseiro para que ela decole sem necessidade de pista.

Fabricada em fibra de carbono, a aeronave possui seis rotores, capacidade para voo manual ou autônomo e foi projetada para operar entre 100 e 1.000 metros de altitude, faixa conhecida como mobilidade aérea de baixa altitude.

A fábrica que mistura indústria automobilística e aviação
O grande diferencial não está apenas no veículo, mas na forma como ele é produzido.

A fábrica ocupa cerca de 120 mil metros quadrados e foi construída para unir o rigor da indústria aeronáutica à velocidade das linhas de montagem automotivas.

Entre os principais números do projeto estão:

capacidade inicial para produzir 5 mil veículos por ano, chegando a 10 mil unidades anuais;

ritmo estimado de um carro voador a cada 30 minutos quando a operação atingir sua capacidade máxima;

produção própria de aproximadamente 300 toneladas de componentes em fibra de carbono por ano;

utilização de energia solar e sistemas inteligentes de gerenciamento energético.

Segundo a empresa, o modelo já acumula cerca de cinco mil encomendas, mesmo antes do início das entregas, previstas para 2027.

O maior desafio ainda está no céu
Apesar do avanço industrial, ainda existe um obstáculo importante: a regulamentação.

O veículo já iniciou o processo de certificação aeronáutica na China e realizou voos tripulados de demonstração. Entretanto, sua utilização em áreas urbanas dependerá da criação de normas específicas para o tráfego aéreo de baixa altitude.

A estratégia chinesa tem chamado atenção porque o governo decidiu desenvolver simultaneamente a tecnologia, a infraestrutura e a legislação necessária para permitir a operação desses veículos no futuro próximo.

Brasil também está na corrida
Embora a China tenha saído na frente na produção em escala industrial, o Brasil também figura entre os protagonistas da mobilidade aérea.

A Embraer, por meio da Eve Air Mobility, desenvolve aeronaves elétricas de decolagem vertical voltadas ao transporte urbano. A diferença é que o projeto brasileiro aposta no conceito de "táxi voador", enquanto o modelo chinês combina um automóvel e uma aeronave em um único sistema.

Se por décadas a pergunta era se um carro voador realmente existiria, agora ela mudou: quando eles começarão a ocupar o céu das grandes cidades? Com uma fábrica funcionando, milhares de pedidos registrados e produção em série iniciada, o futuro imaginado por gerações parece, finalmente, ter saído do papel.